Por Não Estarem Distraídos

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.

No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.”

(“Por não estarem distraídos” – Clarice Lispector)

I still believe in love. I’m a dreamer. I’m stupid.

Don’t

Don’t walk too close
Don’t breathe so soft
Don’t talk so sweet
Don’t sing
Don’t lay oh so near
Please, don’t let me fall in love with you again

Please let me forget
All those sweet smiles
All of the passion
All of the peace, the heat, the pain
All those blue skies
Where your words were my freedom
Please, don’t let me fall in love with you again

Too many times
I’ve cared too much
I stood on the edge
And saw that you held my hand
And knowing too well
I couldn’t hide from those eyes
Please, don’t let me fall in love with you again

(Don’t, Jewel)

Os dias então eram simples porque eu sabia que você estaria lá, na manhã seguinte, para me puxar pelo braço, riscar minha pele à caneta, me dar um beijo escondido, quando ninguém pudesse nos ver nem ouvir.

E agora os dias são complexos porque você não está mais lá, nunca. E eu estou sozinha como estão todos os que pisam o inferno.

Ando com mania de haikai. Acho que é por causa do frio de outono que chegou antecipado, já no fim de fevereiro, comecinho de março.

Meus pés gelados outra vez.

sabishisa ya hanabi no ato no hoshi no tobu

“Solidão.
Após a queima de fogos,
Uma estrela cadente.”

(Shiki)

*

Mais haikais de outono aqui.

E na fúria dos meus dias, destes dias loucos, o que é que se passa, o que é que se passa comigo?

Quando penso que entendo um pouco mais da vida, descubro que não sei é nada. Nada, nada. E sou ruim em jogos, inclusive os de amor. Acho que, nesses, sou pior. Porque meu coração doido só faz responder ao que sente, ao que bate, ao que cala dentro dele, fundo, dolorido. Não sabe jogar. E, quando descobre que está enredado novamente, se cala e reage da pior maneira possível.

Em vez de amor, falo ódio. Em vez de perdão, mágoa. E tudo o que eu tinha para te dizer, calei novamente na garganta, a língua comprida se esconde em timidez, os braços que querem aconchego e lar e abraço apertado só fazem se juntar, mãos apertadas, punhos cerrados.

É que eu não sei, sabe. Eu não sei jogar. E antes eu achava que sabia tudo de amor, tola. Tola e um pouco ingênua. Continuo uma garota de 15 anos de alma, mas sem a convicção dos adolescentes de 15 anos. Vai ver é isso, envelhecer enlouquece a gente. E dói.

“Silent night, broken night
All is fallen when you take your flight
I found some hate for you
Just for show
You found some love for me
Thinking I’d go
Don’t keep me from crying to sleep
Sleep in heavenly peace

Silent night, moonlit night
Nothing’s changed
Nothing is right
I should be stronger than weeping alone
You should be weaker than sending me home
I can’t stop you fighting to sleep
Sleep in heavely peace”

(Silent Night, em versão de Damien Rice)

Corações pendurados

Pendurei meu coração no varal, e ele se multiplicou em muitos corações alinhados, presos por um pregador de roupa. É mais ou menos assim: tem o céu azul, tem a árvore seca de inverno, tem o varal. E os corações, embora não sequem, também não pingam. É preciso que você os pegue na mão, um a um, doucement. E leve todos consigo para um lugar melhor, mais doce.

 

“(…) Oh, you’re in my blood like holy wine

So bitter, and so sweet

I could drink a case of you, darling, and I’d still be on my feet, I would still be on my feet.”

(Na voz de Joni Mitchell)

“Vai buscando as nuvens compactas,
como um samba perfeito,
nesta tarde de sol em que a poesia
é menos que a poesia.
Sabe onde estão os vidros da noite.
Tem dedos infinitos,
narinas transparentes,
imperfeitas sobrancelhas intocadas.
Nos seus quadris começa o mundo.
Seu passo aperfeiçoa o amor.
Há redes grávidas, amarelas
em toda a costa do mapa.
De cada bicho rouba uma surpresa.
Pantera branca, garota de colégio
(jamais um tigre de Bengala
desbotado); brancura acinzentada
do cinema em preto e branco.
E as palavras vivas, na boca viva,
são um pensamento livre.
(Ela deveria ter sido poupada para o mundo justo.)
Antes de se cansar, desaparece.
Depois amanhece.
Viver para ela deve ser bom.”

(Fabrício Corsaletti)

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